terça-feira, 1 de maio de 2012

Analise critica de um post “pro-cotas raciais” e uma análise geral das falácias utilizadas no discurso pro-cotas no debate público.



ESSE TEXTO É UM ARTIGO DE OPINIÃO E NÃO EXPRESSA NENHUMA POSIÇÃO OFICIAL DA AES UFMG.



TEXTO ANALISADO: http://paradalesbica.com.br/2009/08/chora-elite-branca-aprende-a-dividir/ (para ser lido na integra, eu só peguei algumas partes que julguei interessante ressaltar)

Primeiramente, reconheço que este post da blogueira Tate, não necessariamente representa a posição geral de todas as pessoas que apóiam o sistema de cotas raciais na universidade, então eu quero deixar claro que estou atacando apenas pessoas que utilizam de argumentações similares para justificar essa posição.


“CHORA, ELITE BRANCA! APRENDE A DIVIDIR!”
“cansaço é um luxo, diária querida. 
um luxo a que muitas de nós não nos permitimos. nós, mulheres. nós, lésbicas. nós, negras. “

Como disse na introdução, a autora começa com frases vazias, sem relevância para a discussão...Ou talvez ela tenha ressaltado o fato de ser uma mulher negra e lésbica como uma jogada. Oras, se os argumentos que ela colocará a seguir são universais (deveriam ser aceitos por qualquer pessoa racional) o fato dela ser negra ou não, não deveria ser relevante, ela pode até falar com alguma propriedade de experiência pessoa, mas isso no debate público pouco importa, anedotas ilustram os argumentos, mas nunca os validam.

“no dia 21 de julho, o partido democratas entrou no stf com uma ação contra o sistema de cotas étnico-raciais da unb. o partido agora usa essa máscara discursiva da mudança de nome mas é, em essência e aparência, o mesmo partido de sempre, que costumava se chamar pfl e, independentemente do nome que use tem estado sempre a representar os interesses de uma elite branca racista nesse país. 

A afirmação de que o partido que propôs a ação contra as cotas raciais é um partido que defende os interesses da elite branca é um tanto estranho. Primeiro, ela não fornece nenhuma informação para justificar a afirmação sobre o caráter do partido (pode ou não ser verdade, não me importa, só estou apontando que ela afirma isso no vácuo e não se importar em explicar melhor), e em segundo lugar, ela utiliza uma falácia genética, ao considerar que devido ao caráter do partido que propôs a ação ela é necessariamente errada e tem o mesmo caráter elitista.


Basicamente o que ela diz é isso:

“O caráter elitista do partido democrata foi o que levou à ação contra as cotas raciais, logo qualquer um que for contra as cotas (ou seja, apoiar essa ação) se identifica com esse caráter elitista e racista do partido”
Isso é uma falácia genética.



“desde que a população negra se organiza no brasil, quer dizer, há 500 e tantos anos, a demanda por eqüidade racial é uma constante. “eqüidade”, e não “igualdade”, porque igualdade ainda parte do pressuposto universalista de que, em algum plano material, todas as pessoas podem ser iguais. e isso é perverso, apaga as diferenças e especificidades de cada grupo sociocultural. 
as cotas étnico-raciais nas universidades não dizem respeito só a uma medida de reparação de injustiça histórica. elas são necessárias pra construção de uma sociedade de hoje e de amanhã em que as pessoas negras estejam ocupando lugares de prestígio restritos à população branca, como: espaços de construção de saber, espaços de construção de poder e espaços de vida digna e tranqüila, em geral, com acesso a coisas simples como o direito de andar na rua sem ser alvo a priori de violência policial, ou também o de andar na rua sem que achem que seu corpo está disponível pra qualquer abuso e violação. “


1.       a demanda por eqüidade racial é uma constante
2.       as cotas étnico-raciais são necessárias pra construção de uma sociedade  em que as pessoas negras estejam ocupando lugares de prestígio restritos à população branca,


Ao meu ver, isso é uma forma de "igualdade forçada", sim, queremos uma sociedade onde exista diversidade na ocupação dos diversos cargos, mas pensar em uma "manipulação" disso, é ignorar o indivíduos e suas ânsias e desejos particulares, prover uma oportunidade igual para todos de se capacitarem para os processos seletivos, parece muito mais sensato e realístico, do que tentar encaixar as pessoas em determinados lugares da sociedade apenas para obtermos uma imagem de cartilha de diversidade!

“mesmo sendo diaspórica, porque veio de um povo negro seqüestrado em outro continente, a demanda por cotas étnico-raciais não é “importada” e continua sendo urgente. ela não foi cedida por um governo bonzinho (como no velho mito da abolição doada por uma princesa) nem pela administração pró-inclusão de determinadas universidades: as cotas étnico-raciais de acesso ao ensino superior são uma das conquistas da população negra no brasil, que tem sido humilhada, desumanizada, assassinada, estuprada, violentada, explorada, oprimida e vilipendiada desde 1500, MAS QUE NUNCA SE RENDEU. 
Acho que essa parte só é digna de uma frase: Apela à emoção
Mas vamos relevar, afinal é um artigo de opinião, é de se esperar que a autora utilize de tais artifícios.
“aqui estamos nós. e é a partir a partir desse conjunto de percepções que parto pra construir a coluna dessa quinzena. esse texto de hoje não vai ser como os que costumo escrever, cheios de meandros. ele é um texto mais pontual em defesa das cotas étnico-raciais, feito por uma mulher negra lésbica, cotista da unb,¹ que não se dá ao luxo de ficar muito cansada por ter que continuar lutando contra uma elite branca, racista que tenta roubar o que já era nosso e foi reconquistado às custas de nosso sangue, nossas lágrimas e nosso suor. mas também nossa felicidade guerreira, axé!  
“a noite não adormece nos olhos das mulheres” e nós, mulheres, não paramos. nunca. então vamos lá, uma vez mais esclarecendo enegrecendo as coisas:” 
¹ Apelo à autoridade, citado no Estratagema 30 de Schopenhauer : “Sou uma mulher negra, lesbica e cotista, logo falo do assunto com propriedade”
Um pequeno parênteses: Eu compreendo certo envolvimento emocional com causas, eu me considero ativista de algumas causas e tenho também uma paixão por cada uma delas. Mas quando estamos argumentando, tentando expor nossos motivos, ficar repetindo como a “elite branca racista faz isso ou aquilo” sem apontar exatamente como, onde, quando ela (quem é essa elite?) o faz, sem dar evidencias do que ela fala.

Toda vez que essa autora fala “elite branca racista” ela está primeiro,tentando associar a posição contra as cotas raciais com o racismo e as elites brsileiras, o que é uma forma de representar de forma maliciosa a posição adversária como sendo parte de uma ideologia ou sistema de crenas que por tradição é mal visto na sociedade(Olhar os Estratagema 38 e 32 de Schopenhauer).

Agora após essa introdução carregada de emoção, vamos dar alguém credito à autora e analisar seus argumentos, levando em consideração que a tese defendida por ela é a de que as cotas raciais em universidades publicas é justa e necessária.

“1. dos mitos de que “não existe racismo no brasil” e de que o brasil “é uma democracia racial”:
(..)
 “nunca é demais lembrar que o problema do brasil não é a pobreza, como muitxs gostam de dizer, mas também é importante não perder de foco que a pobreza tem ganhado, cada vez mais, uma cor e um gênero específicxs: é negra e é mulher (e isso também é resultado de um processo histórico de escravização e produção capitalista-patriarcal de sociedade”

 
Ok. Dados estatísticos são apresentados, mas de fato o que eles dizem?
Não vou analisar profundamente a situação social do negro no Brasil, vamos apenas assumir que ela está correta, ela é bem pior, e pior ainda para a mulher negra. Como ela consegue exergar que o que gera esses problemas sociais é a cor da pele da pessoa e não as condições sociais da pessoa? Ela já se defende ao final dessa parte, dizendo que para nós não perder de foco que a pobreza tem ganhado, cada vez mais, uma cor e um gênero específicos”, eu apontaria isso como um falso silogismo (Estratagema 24), por mais que a maioria da população pobre seja negra, isso não implica que todo pobre é negro, nem que todo negro é pobre.
Sim. Existe racismo no Brasil, um racismo social, as pessoas ainda discriminam os negros. POREM o que define essa situação onde a maioria da população de baixa renda é negra não é o racismo social, mas um processo histórico. Mesmo que não houvesse um racismo social, se todas as pessoas se enxergassem como iguais essa situação AINDA seria uma realidade, pois o processo histórico ainda teria sido o mesmo. É um erro definir o racismo assim de forma geral e esperar que isso sirva de argumento para cotas na universidade, não serve. O racismo social e a co-relação entre raça e situação socioeconômica não são a mesma coisa.

“2. do mito da “igualdade de oportunidades”: 
desde o iluminismo o sistema patriarcal se refinou ao estabelecer uma nova agenda, instrumentalizando-se do racismo imperialista e do capitalismo pra se consolidar e expandir. o resultado disso, entre muitos outros, é que paira no imaginário social das organizações ocidentais a falsa ilusão de que o mérito é a chave do sucesso. aliada à uma outra doutrina, a predestinação cristã, a meritocracia é um sistema ideal de manutenção do capitalismo racista patriarcal: assegura que todas as pessoas vão continuar se empenhando nos sistemas de produção vigentes (exploração do trabalho, exploração da natureza, separação entre natureza e sociedade, especialização de funções com alienação dos processos etc) pra que apenas algumas ganhem de fato os benefícios materiais vindos disso (quer dizer, “lucro”. alguém lembrou de karl marx e mais-valia?), mas com uma miragem de que, a qualquer momento, “vai chegar a sua vez”. o capitalismo é um sistema de produção de escassez, e não de abundância: se o sol nascer pra todo mundo, o sistema pára de funcionar. mas há essa ilusão de que o sol é pra quem “merece”, quem “se esforça”, independentemente de sua classe, sua cor, de com quem você se deita. 
isso é mentira. o capitalismo é um sistema de produção de escassez, e não de abundâncias. é importante repetir isso num país em que ouvir declarações do tipo “mas o pelé deixou de ser negro depois que enriqueceu” é tão corriqueiro quanto abordagem policial violenta nas periferias negras do país. o pelé nunca vai deixar de ser negro. nem michael jackson conseguiu: mesmo tendo se despigmentado, a elite branca deixou nítido que a ele nunca seria permitido ocupar, de fato, um lugar de prestígio à sociedade. prova disso? a forma como era tratado: como louco, como pária, doente, nunca como um “homem de bem” (alguém além de mim pensou num homem branco de bigode e chapéu ao ler isso?). à população negra não basta “se esforçar”. ascensão social, ou o mero acesso a bens materiais e culturais, não é questão de meritocracia. merecer viver bem, todo mundo merece. então por que não é todo mundo que vive? porque o capitalismo é um sistema racista e patriarcal de produção de escassez, e não de abundâncias. “
 

Nessa parte eu fiquei meio chocada com a facilidade dela de MUDAR completamente de assunto. Nossa, realmente, chocada. Mas vamos lá...O capitalismo é um problema sim, a competência não é garantia de sucesso mesmo não, porque ninguém faz nada sem os recursos e oportunidades necessárias. Ponto. O que isso tem haver com as cotas nas universidades???? TODO trabalhador é explorado, TODO estudante tentando conseguir uma vaga na universidade publica está sujeito a um sistema injusto de seleção, onde competirão por uma vaga na universidade com pessoas que tiveram oportunidade de estudar em escolas particulares, umas de fazer cursinho e etc. Isso de fato parece injusto, tratar os diferentes como iguais, certo? Mas o que isso nós diz sobre o sistema de ingresso na univerdade? Na minha visão nos diz que precisamos dar aceso igual na educação básica, e na medida do possível aumentar o numero de vagas no ensino superiror, para que a educação superior se torne de fato um direito e não um privilégio. O único problema na lógica da autora é colocar a questão da raça no meio disso tudo, sendo que a raça é apenas um fator de co-relação secundário que não afeta de fato o acesso à educação. Vou então pular para o quinto ponto que ela fez, onde ela chega nesse assunto.  Não considero que os pontos 3 e 4 sejam muito relevantes para a questão tratada agora, e pode ser discutida depois.
5. do mito de que “não precisa de cotas na universidade, o que precisa é melhorar a educação lá  na base”:

isso é mentira por um fato simples: o maior índice de evasão escolar é da população negra. o que isso nos conta sobre a escola? que crianças negras não se sentem bem ali.

Essa frase já é um equivoco, (olhar Estratagema 11), a maior evasão escolar por parte da população negra pode ser explicado de outras formas que não necessariamente porque as crianças negras não se sentem bem na escola. E no restante do texto ela trás a questão as evasão, e novamente eu pergunto...O QUE DIABOS ISSO TEM HAVER COM AS COTAS PARA UNIVERSIDADE? Se o problema NÃO é acesso...então claramente as cotas raciais não resolveriam o problema!


É claro, para mim, que a exclusão quando se trata da educação, NÃO é de forma alguma racial, ela é econômica. Uma pessoa negra que tenha condições econômicas de ter um estudo de qualidade não está mais prejudicada do que uma pessoa branca nas mesmas condições. 


Eu fiz essa análise de forma bem rápida, acho que posso sim ter cometido erros, ou deixado de abordar argumentos relevantes, e se for o caso gostaria que me fosse apontado.

Mas por favor, menos discurso político, e mais argumentação racional. E bem, mesmo que não seja inconstitucional, eu ainda acho que cotas raciais são no mínimo estúpidas. Comentem.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Marcha pelo Estado Laico

No dia 26 de Abril de 2012 acontecerá em Belo Horizonte a II Marcha Pelo Estado Laico. Para reivindicar uma efetiva separação do Estado com as religiões os manifestantes se encontrarão na Praça da Liberdade às 16h e se dirigirão para a Praça Sete, passando durante a caminhada por locais estratégicos para protestar contra o avanço das religiões frente ao Estado. A luta é pela laicidade, não contra as religiões. A laicidade do estado interessa a todos e todas, é elemento fundamental para a pluralidade cultural, religiosa e para a efetivação de um projeto democrático de sociedade. Compareça e libere sua criatividade nos seus cartazes! Esperamos todos e todas.

domingo, 18 de março de 2012

Marcha pelo Estado Laico

A segunda edição da Marcha pelo Estado Laico está para acontecer, mantenham-se informados pelo evento no facebook:

Essa é mais uma oportunidade para que possamos abrir espaço para discutir a laicidade do Estado Brasileiro e expor os problemas em torno disso.

Na próxima reunião da AES (as reuniõas 1/2012 estão ocorrendo nas segundas-feiras, na ARENA da FAFICH, as 17 horas, e no ICEX as 10:30 *horário em fase de teste*) estaremos discutindo o Estado laico e a Marcha.

Lembrando que a marcha ocorre em varias outras cidades do Brasil e é um movimento que está crescendo cada vez mais.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cristão condenado a morte no Irã - O que aprender com isso?


O caso do homem condenado a morte no Irã por renunciar a fé islâmica tomou grande repercussão no mundo todo, e aqui no Brasil inclusive. Muitos cristãos em especial se mostraram solidários ao homem, porque ele havia se convertido ao cristianismo, então ele não apenas estava rejeitando a fé islâmica, eles estava adotando o cristianismo como sua fé. Eu infelizmente sinto que muitas pessoas não entenderam o que está errado nesse caso. Acham que o erro está na politica do país, talvez, mas será que percebem que o problema é bem mais profundo? Que essa pena não é só absurda porque é uma pena de morte, mas esta é uma acusação absurda. Mas o que falta no Irã não é bom senso na hora de fazer as leis, eles estão completamente de acordo com a lógica deles, naquele pais a lei religiosa é a lei, faz sentido que as leis e suas punições sejam baseadas no livro sagrado deles. O problema é exatamente o fato da lei ser feita baseada na religião da maioria, e o oposto disso é o Estado Laico! Esse laicismo muitos que fazem parte maioria religiosa no Brasil vêem como ruim (claro, pois tira o poder de imposição religiosa da mão deles), é exatamente o que falta no Irã e o que iria impedir que casos como esses se quer ocorrecem. Então irei repetir: a liberdade religiosa só existe de fato em um Estado Laico, onde as liberdades individuais são garantidas, e protegidas da imposição religiosa. O problema do Irã não é o islamismo, a bíblia já teve seus tempos de justificar atrocidades...Se não podemos impedir pessoas sádicas de interpretarem coisas absurdas de seus livros religiosos, pelo menos vamos concordar que estes livros não são para servirem de base para as nossas leis.

Neo-ateísmo e secularismo

*As ideias expressas nesse texto são de responsabilidade minha (Daniela Halley) e não necessariamente representam a opinião dos membros do grupo*

A crença religiosa é uma forma de crença muito forte, talvez por isso tenha sido alvo de muitas das discussões mais importantes da nossa época, a forma como essa crença afeta as estruturas politicas e sociais é diferente, diferente de outras formas de crenças, pois essa crença está relacionada a perguntas ultimas, o sentido de nossas
existências e nossa noção de moral e de como devemos viver nossas vidas. O fato da religião influenciar nosso comportamento social de tal forma é exatamente o que acabou criando esse movimento neo-ateísta, que claramente vai além de expressar a descrença, mas uma desaprovação de muito do que as religiões representam em nossa sociedade. Esse momento é de uma delicadeza enorme, com muita deixa para ignorância e preconceito.

Oprimidos por tanto tempo, as pessoas que não professam crenças religiosas se veem hoje numa posição onde podem expressar suas opiniões, e onde podem finalmente criticar "livremente" as religiões (Quero dizer: Nas partes do mundo onde há liberdade de expressão temos essa liberdade, mas que não é por inteiro, já que muitas vezes temos que lidar com a "regra" social, quem nunca ouviu falar que religião é assunto proibido? É indelicado questionar as crenças religiosas). Então o neo-ateísmo vem de forma explosiva, depois de tanta repressão, queremos tirar do nosso peito, tantos males causados pelas religiões (que até então eram vistas como geradoras de paz, de moralidade, de amor). A sensação que temos é de que há uma justiça a ser feita, a religião deve ser exposta pelo o que é, pelo o que causou ao mundo, e pelo o que pode causar.

Mas há um perigo nessa movimentação toda, no calor do momento, na emoção de se ter pela primeira vez uma organização entre as pessoas que NÃO acreditavam em nenhuma religião, muitas pessoas se perderam, e acabaram se tornando tão dogmáticas quanto as pessoas que eles denunciavam. Me parece que o ateísmo foi massificado, e como qualquer ideia que se torna de massa, passa a ser distorcida e super simplificada. Questões filosóficas sobre a existência de Deus que são tão velhas quanto a própria filosofia são reduzidas a argumentos para serem usados em discussões que geralmente não tratam de desenvolver uma ideia, nem de se buscar a verdade, mas de apenas defender uma posição da melhor forma possível.

Os ateus passaram de simplesmente defender que sua posição de descrença era pertinente e deveria ser respeitada para....dizer que a posição teísta é ilógica, absurda, coisa de louco, um delírio. O ateísmo em massa vende essas palavras, e colocam no outro espectro palavras como "razão", definindo portanto ateus como sendo pessoas racionais e as pessoas religiosas como sendo as pessoas irracionais. Mais simplistas e generalista impossível.

A um tempo atrás, um amigo americano conversava comigo e apesar de ser um ateu, ele era muito crítico do humanismo secular, ele falava de como as pessoas que se juntavam em grupos sempre acabariam se comportando como ovelhas. Eu temo que ele estava certo em partes, mas não acho que isso seja algo necessário, mas um perigo na organização social. O perigo está em quando um grupo de pessoas que se denominam "céticos" deixam de analisar criticamente sua própria posição, quando um grupo de pessoas que valorizam a "razão" esquecem de usa-la.

Mas ainda acho que o pior de tudo é quando esse grupo de pessoas vê a ignorância e intolerância do outro como motivo para ser tão ignorante e intolerante quanto. O crente nos chama de imoral, nós o chamamos de louco. Onde há espaço para dialogo nisso tudo? Acho que muitas dessas pessoas de fato não quer que haja um dialogo, elas apenas querem aguardar o dia em que a religião desapareça no mundo, pois para essas pessoas é o ruma natural das coisas, certo? Pois a crença religiosa é fruto da ignorância humana e falta de capacidade de explicar a vida...e um dia a ciência nos dará todas as respostas. Certo?

Bom, eu não sei disso, só sei que para mim o que tem se extinguir não é a crença religiosa, com essa podemos conviver, afinal, a diversidade de crença não precisa ser uma pedra no sapato da humanidade. O que eu acho que é necessário é que mantenhamos aberto a possibilidade de se criticar toda e qualquer ideia, que nenhuma delas seja tomada como especial, para mim isso basta, basta que nós asseguremos a liberdade, a democracia, manter a crença pessoal...pessoal, e não uma base para a formação de leis.

Por esse motivo eu vejo uma luz muito mais brilhante no secularismo, mais do que no neo-ateísmo (apensar de que eu ache importante manter essa chama acessa, essa noção de que podemos até fazer piada de religiões, mas lembrando que só porque você pode fazer algo, não quer dizer que você deva fazer. Eu acho ridículo que minha irmã acredite em homeopatia, e eu poderia muita bem ridicularizar ela por isso, mas não acho que isso seria bom para nosso relacionamento nem que seria algo que mudaria a ideia dela, portanto completamente desnecessário), porque o secularismo é uma ideia que engloba as coisas que eu julgo mais preciosas, a garantia de um Estado que protegerá a liberdade de crença, a liberdade de expressão, também a própria diversidade de crenças e acima de tudo nossas liberdade individuais, impedindo que a crença religiosa do outro seja forçada sobre aqueles que não a compartilham.

Peço nesse ano de 2012 por um movimento secularista que saiba separar questões filosóficas, politicas, econômicas e sociais. Que não se cubra de preconceitos e se torne tão intolerante quanto aquele que atacamos. Que saiba reconhecer seus inimigos e seus aliados. Porque ser dono da verdade não é tão importante assim. Temos que pensar primeiro em como estamos contribuindo para a situação e sempre parar para analisar se nossos métodos estão nos levando mais próximos de nossos objetivos ou nos afastando.










domingo, 18 de setembro de 2011

Marcha Pelo Estado Laico

Foi realizado ontem, dia 17 de setembro de 2011, a primeira marcha pelo Estado Laico em Belo Horizonte. O evento reuniu vários ativistas pelo laicismo, a marcha foi da Praça Afonso Arinos até a praça da Liberdade. O foco principal da marcha foi dar visibilidade à questão da laicidade do Estado, à constituição, e a forma como ela vem sido ignorada em função da influencia religiosa no Estado, desde questões nacionais até questões locais. Eu (Daniela Halley) estive presente representando a AES UFMG, o Hugo esteve lá também. Apesar de não termos reunido muitas pessoas, achei muito válido e importante esse primeiro passo, isso foi o INÍCIO apenas, de um diálogo que precisamos começar com a sociedade brasileira.







A Marcha pelo Estado Laico ocorreu também em várias capitais, como Rio, São Paulo, Recife e etc ( dê uma olhada no blog http://marchaestadolaico.wordpress.com/ para mais informações) . Em Curitiba tivemos a participação da AES UFPR. Gostaría da oportunidade para parabenizar o grupo pelo empenho e ativismo, parece que a AES UFPR vem se desenvolvendo muito bem lá, e isso demonstra a força de vontade de seus participantes!


(Marcha Pelo Estado Laico - Curitiba)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Religião e Psicanálise

A Reunião da semana foi bem interessante, o Daniel apresentou uma visão psicanalitica acerca da religião, e discutimos sobre o que motiva as pessoas em geral a buscarem a religião ou “deus” em alguma delas. Além de entrarmos nas questões sobre o que é biologico (inerente na falta de uma palavra melhor) no ser humano ou o que é contrução social.  O texto usado como motivador da discução dessa semana está logo abaixo. 

Psicanálise de Freud e Outros:
Religião:
´´Freud fala da religião como uma
manifestação neurótica, uma neurose
coletiva, e diz que a obsessão e a religião são
particular do neurótico``
O que era a Religião pra Freud? Basicamente, uma forma de defesa inconsciente, coletivamente vivida como uma gigantesca neurose obsessional. Nos rituais e exercícios religiosos, ele via a réplica dos atos obsessivos. Ou seja, o mesmo caráter compulsivo e inconsciente de condutas que desconhecem suas causalidades e determinações. Mas pode-se perguntar defesa contra o que? Contra pelo menos dois grandes fatos psíquicos: o medo da morte e a culpa pelo desejo de morte.
Para Freud, a religião é uma regressão à infância, uma projeção da figura de um pai protetor e fonte de segurança na idéia de um Deus. Ligando a religião a uma estrutura social de obediência a uma autoridade paterna, garante da ordem e do sentido para a comunidade. Quer isto dizer que a religião para Freud, embora ele não houvesse aprofundado este caminho, estaria ligado às estruturas comunitárias e políticas de uma sociedade.
Fromm depois segue bem este caminho, mostrando como o patriotismo e as neuroses modernas são da mesma família da árvore genealógica da religiosidade: Como forma coletiva e poderosa de idolatria moderna encontramos o culto do poder, do sucesso e da autoridade do mercado; mas, para além destas formas coletivas, encontramos algo mais. Se rasparmos a superfície do homem moderno encontramos um sem-número de formas primitivas e individualizadas de religião. Muitas destas formas são designadas por neuroses, mas também lhe poderíamos dar os respectivos nomes religiosos: culto dos antepassados, totemismo, fetichismo, ritualismo, culto da purificação e por aí adiante. Assim, o culto dos antepassados pode ser encontrado na adoração em massas de uma estrela do rock falecida há muitos anos; o totemismo pode ser encontrado no culto do dragão, do leão e da águia (falo do futebol português como é óbvio), com suas estruturas grupais e tribais geradoras de culto de massas; o culto da purificação, para além de atingir muito doentes obsessivo-compulsivos, é um espírito que a ASAE encarna bem e encontramos uma mitologia da purificação muito bem elaborada nos anúncios do detergente da louça e da roupa (as bolinhas brancas que comem a sujidade à superfície e as bolinhas verdes que comem as sujidades profundas), o ritualismo é facilmente visível nas tomadas de posse e corte de fitas de muitas figuras políticas. Sobre esses políticos acrescentaria um outro aspecto religioso importante: as rezas (quando eles têm as orações/discursos já prontos e o seu único trabalho é encaixar a rezinha certa no momento certo).
Ainda indo à dicotomia Religião-Mãe (útero, simbiose, emoção, fé) e a Ciência-Pai (identidade, separação, pensamento, razão). Responde–se a questão da motivação religiosa como forma inconsciente de compensação fraterna.