ESSE TEXTO É UM ARTIGO DE OPINIÃO E NÃO EXPRESSA NENHUMA POSIÇÃO OFICIAL DA AES UFMG.
TEXTO ANALISADO: http://paradalesbica.com.br/2009/08/chora-elite-branca-aprende-a-dividir/ (para ser lido na integra, eu só peguei algumas partes que julguei interessante ressaltar)
Primeiramente,
reconheço que este post da blogueira Tate, não necessariamente representa a
posição geral de todas as pessoas que apóiam o sistema de cotas raciais na
universidade, então eu quero deixar claro que estou atacando apenas pessoas que
utilizam de argumentações similares para justificar essa posição.
“CHORA, ELITE BRANCA! APRENDE A DIVIDIR!”
“cansaço é um
luxo, diária querida.
um luxo a que muitas de nós não nos permitimos. nós, mulheres.
nós, lésbicas. nós, negras. “
Como disse na introdução, a autora começa com frases vazias, sem relevância para a discussão...Ou talvez ela tenha ressaltado o fato de ser uma mulher negra e
lésbica como uma jogada. Oras, se os argumentos que ela colocará a seguir são
universais (deveriam ser aceitos por qualquer pessoa racional) o fato dela ser
negra ou não, não deveria ser relevante, ela pode até falar com alguma
propriedade de experiência pessoa, mas isso no debate público pouco importa,
anedotas ilustram os argumentos, mas nunca os validam.
“no dia 21 de julho, o partido democratas entrou no stf com
uma ação contra o sistema de cotas étnico-raciais da unb. o partido agora usa
essa máscara discursiva da mudança de nome mas é, em essência e aparência, o
mesmo partido de sempre, que costumava se chamar pfl e, independentemente do
nome que use tem estado sempre a representar os interesses de uma elite branca
racista nesse país. “
A
afirmação de que o partido que propôs a ação contra as cotas raciais é um
partido que defende os interesses da elite branca é um tanto estranho.
Primeiro, ela não fornece nenhuma informação para justificar a afirmação sobre
o caráter do partido (pode ou não ser verdade, não me importa, só estou
apontando que ela afirma isso no vácuo e não se importar em explicar melhor), e
em segundo lugar, ela utiliza uma falácia genética, ao considerar que devido ao
caráter do partido que propôs a ação ela é necessariamente errada e tem o mesmo
caráter elitista.
Basicamente o que ela diz é isso:
“O caráter elitista do partido democrata foi
o que levou à ação contra as cotas raciais, logo qualquer um que for contra as
cotas (ou seja, apoiar essa ação) se identifica com esse caráter elitista e
racista do partido”
Isso é uma falácia genética.
“desde
que a população negra se organiza no brasil, quer dizer, há 500 e tantos anos,
a demanda por eqüidade racial é uma constante. “eqüidade”, e não
“igualdade”, porque igualdade ainda parte do pressuposto universalista de
que, em algum plano material, todas as pessoas podem ser iguais. e isso é
perverso, apaga as diferenças e especificidades de cada grupo sociocultural.
as cotas étnico-raciais nas universidades não dizem respeito só a uma medida de reparação de injustiça histórica. elas são necessárias pra construção de uma sociedade de hoje e de amanhã em que as pessoas negras estejam ocupando lugares de prestígio restritos à população branca, como: espaços de construção de saber, espaços de construção de poder e espaços de vida digna e tranqüila, em geral, com acesso a coisas simples como o direito de andar na rua sem ser alvo a priori de violência policial, ou também o de andar na rua sem que achem que seu corpo está disponível pra qualquer abuso e violação. “
as cotas étnico-raciais nas universidades não dizem respeito só a uma medida de reparação de injustiça histórica. elas são necessárias pra construção de uma sociedade de hoje e de amanhã em que as pessoas negras estejam ocupando lugares de prestígio restritos à população branca, como: espaços de construção de saber, espaços de construção de poder e espaços de vida digna e tranqüila, em geral, com acesso a coisas simples como o direito de andar na rua sem ser alvo a priori de violência policial, ou também o de andar na rua sem que achem que seu corpo está disponível pra qualquer abuso e violação. “
1.
a demanda por eqüidade racial é uma constante
2.
as cotas étnico-raciais são necessárias pra
construção de uma sociedade em que as pessoas
negras estejam ocupando lugares de prestígio restritos à população branca,
Ao meu ver, isso é uma forma de "igualdade forçada", sim, queremos uma sociedade onde exista diversidade na ocupação dos diversos cargos, mas pensar em uma "manipulação" disso, é ignorar o indivíduos e suas ânsias e desejos particulares, prover uma oportunidade igual para todos de se capacitarem para os processos seletivos, parece muito mais sensato e realístico, do que tentar encaixar as pessoas em determinados lugares da sociedade apenas para obtermos uma imagem de cartilha de diversidade!
Ao meu ver, isso é uma forma de "igualdade forçada", sim, queremos uma sociedade onde exista diversidade na ocupação dos diversos cargos, mas pensar em uma "manipulação" disso, é ignorar o indivíduos e suas ânsias e desejos particulares, prover uma oportunidade igual para todos de se capacitarem para os processos seletivos, parece muito mais sensato e realístico, do que tentar encaixar as pessoas em determinados lugares da sociedade apenas para obtermos uma imagem de cartilha de diversidade!
“mesmo sendo diaspórica, porque veio de um povo negro seqüestrado em
outro continente, a demanda por cotas étnico-raciais não é “importada” e
continua sendo urgente. ela não foi cedida por um governo bonzinho (como no
velho mito da abolição doada por uma princesa) nem pela administração
pró-inclusão de determinadas universidades: as cotas étnico-raciais de acesso
ao ensino superior são uma das conquistas da população negra no brasil, que tem
sido humilhada, desumanizada, assassinada, estuprada, violentada, explorada,
oprimida e vilipendiada desde 1500, MAS QUE NUNCA SE RENDEU. “
Acho que essa parte só é digna de uma frase:
Apela à emoção
Mas vamos relevar, afinal é um artigo de
opinião, é de se esperar que a autora utilize de tais artifícios.
“aqui estamos nós. e é a partir a partir desse conjunto de percepções
que parto pra construir a coluna dessa quinzena. esse texto de hoje não vai ser
como os que costumo escrever, cheios de meandros. ele é um texto mais
pontual em defesa das cotas étnico-raciais, feito por uma mulher negra lésbica,
cotista da unb,¹ que não se dá ao luxo de ficar muito cansada por ter que
continuar lutando contra uma elite branca, racista que tenta roubar o que já
era nosso e foi reconquistado às custas de nosso sangue, nossas lágrimas e
nosso suor. mas também nossa felicidade guerreira, axé!
“a noite não adormece nos olhos das mulheres” e nós, mulheres, não paramos. nunca. então vamos lá, uma vez maisesclarecendo enegrecendo as coisas:”
“a noite não adormece nos olhos das mulheres” e nós, mulheres, não paramos. nunca. então vamos lá, uma vez mais
¹ Apelo à autoridade, citado no Estratagema 30
de Schopenhauer : “Sou uma mulher negra, lesbica e cotista, logo falo do
assunto com propriedade”
Um pequeno parênteses: Eu compreendo certo
envolvimento emocional com causas, eu me considero ativista de algumas causas e
tenho também uma paixão por cada uma delas. Mas quando estamos argumentando,
tentando expor nossos motivos, ficar repetindo como a “elite branca racista faz
isso ou aquilo” sem apontar exatamente como, onde, quando ela (quem é essa
elite?) o faz, sem dar evidencias do que ela fala.
Toda vez que essa autora fala “elite branca
racista” ela está primeiro,tentando associar a posição contra as cotas raciais
com o racismo e as elites brsileiras, o que é uma forma de representar de forma
maliciosa a posição adversária como sendo parte de uma ideologia ou sistema de crenas
que por tradição é mal visto na sociedade(Olhar os Estratagema 38 e 32 de
Schopenhauer).
Agora após essa introdução carregada de emoção,
vamos dar alguém credito à autora e analisar seus argumentos, levando em
consideração que a tese defendida por ela é a de que as cotas raciais em
universidades publicas é justa e necessária.
“1. dos mitos de que “não existe racismo no brasil” e de que o
brasil “é uma democracia racial”:
(..)
“nunca é demais lembrar que o problema do
brasil não é a pobreza, como muitxs gostam de dizer, mas também é importante
não perder de foco que a pobreza tem ganhado, cada vez mais, uma cor e um
gênero específicxs: é negra e é mulher (e isso também é resultado de um processo histórico
de escravização e produção capitalista-patriarcal de sociedade”
Ok. Dados estatísticos são apresentados, mas de
fato o que eles dizem?
Não vou analisar profundamente a situação
social do negro no Brasil, vamos apenas assumir que ela está correta, ela é bem
pior, e pior ainda para a mulher negra. Como ela consegue exergar que o que
gera esses problemas sociais é a cor da pele da pessoa e não as condições
sociais da pessoa? Ela já se defende ao final dessa parte, dizendo que para nós
“não perder
de foco que a pobreza tem ganhado, cada vez mais, uma cor e um gênero
específicos”, eu apontaria isso como um falso silogismo (Estratagema 24), por
mais que a maioria da população pobre seja negra, isso não implica que todo
pobre é negro, nem que todo negro é pobre.
Sim. Existe racismo no Brasil, um racismo social, as pessoas ainda
discriminam os negros. POREM o que define essa situação onde a maioria da
população de baixa renda é negra não é o racismo social, mas um processo
histórico. Mesmo que não houvesse um racismo social, se todas as pessoas se enxergassem
como iguais essa situação AINDA seria uma realidade, pois o processo histórico
ainda teria sido o mesmo. É um erro definir o racismo assim de forma geral e
esperar que isso sirva de argumento para cotas na universidade, não serve. O
racismo social e a co-relação entre raça e situação socioeconômica não são a
mesma coisa.
“2. do
mito da “igualdade de oportunidades”:
desde o iluminismo o sistema patriarcal se refinou ao estabelecer
uma nova agenda, instrumentalizando-se do racismo imperialista e do capitalismo
pra se consolidar e expandir. o resultado disso, entre muitos outros, é que
paira no imaginário social das organizações ocidentais a falsa ilusão de que
o mérito é a chave do sucesso. aliada à uma outra doutrina, a predestinação
cristã, a meritocracia é um sistema ideal de manutenção do capitalismo racista
patriarcal: assegura que todas as pessoas vão continuar se empenhando nos
sistemas de produção vigentes (exploração do trabalho, exploração da
natureza, separação entre natureza e sociedade, especialização de funções com
alienação dos processos etc) pra que apenas algumas ganhem de fato os
benefícios materiais vindos disso (quer dizer, “lucro”. alguém lembrou de karl
marx e mais-valia?), mas com uma miragem de que, a qualquer momento, “vai
chegar a sua vez”. o capitalismo é um sistema de produção de escassez, e não
de abundância: se o sol nascer pra todo mundo, o sistema pára de funcionar.
mas há essa ilusão de que o sol é pra quem “merece”, quem “se esforça”, independentemente
de sua classe, sua cor, de com quem você se deita.
isso é
mentira. o capitalismo é um sistema de produção
de escassez, e não de abundâncias. é importante repetir isso num país em
que ouvir declarações do tipo “mas o pelé deixou de ser negro depois que
enriqueceu” é tão corriqueiro quanto abordagem policial violenta nas periferias
negras do país. o pelé nunca vai deixar de ser negro. nem michael jackson
conseguiu: mesmo tendo se despigmentado, a elite branca deixou nítido que a ele
nunca seria permitido ocupar, de fato, um lugar de prestígio à sociedade. prova
disso? a forma como era tratado: como louco, como pária, doente, nunca como um
“homem de bem” (alguém além de mim pensou num homem branco de bigode e chapéu
ao ler isso?). à população negra não basta “se esforçar”. ascensão social, ou o
mero acesso a bens materiais e culturais, não é questão de meritocracia.
merecer viver bem, todo mundo merece. então por que não é todo mundo que vive? porque o capitalismo é um sistema racista e patriarcal de
produção de escassez, e não de abundâncias. “
Nessa parte eu fiquei meio chocada com a
facilidade dela de MUDAR completamente de assunto. Nossa, realmente, chocada.
Mas vamos lá...O capitalismo é um problema sim, a competência não é garantia de
sucesso mesmo não, porque ninguém faz nada sem os recursos e oportunidades necessárias.
Ponto. O que isso tem haver com as cotas nas universidades???? TODO trabalhador
é explorado, TODO estudante tentando conseguir uma vaga na universidade publica
está sujeito a um sistema injusto de seleção, onde competirão por uma vaga na
universidade com pessoas que tiveram oportunidade de estudar em escolas
particulares, umas de fazer cursinho e etc. Isso de fato parece injusto, tratar
os diferentes como iguais, certo? Mas o que isso nós diz sobre o sistema de
ingresso na univerdade? Na minha visão nos diz que precisamos dar aceso igual
na educação básica, e na medida do possível aumentar o numero de vagas no
ensino superiror, para que a educação superior se torne de fato um direito e
não um privilégio. O único problema na lógica da autora é colocar a questão da
raça no meio disso tudo, sendo que a raça é apenas um fator de co-relação
secundário que não afeta de fato o acesso à educação. Vou então pular para o
quinto ponto que ela fez, onde ela chega nesse assunto. Não considero que os pontos 3 e 4 sejam muito
relevantes para a questão tratada agora, e pode ser discutida depois.
5. do mito de que “não precisa de cotas na universidade, o que
precisa é melhorar a educação lá na base”:
isso é mentira por um fato simples: o maior índice de evasão
escolar é da população negra. o que isso nos conta sobre a escola? que crianças
negras não se sentem bem ali.
Essa frase já é um equivoco, (olhar Estratagema 11), a maior
evasão escolar por parte da população negra pode ser explicado de outras formas
que não necessariamente porque as crianças negras não se sentem bem na escola. E
no restante do texto ela trás a questão as evasão, e novamente eu pergunto...O
QUE DIABOS ISSO TEM HAVER COM AS COTAS PARA UNIVERSIDADE? Se o problema NÃO é
acesso...então claramente as cotas raciais não resolveriam o problema!
Eu fiz essa análise de forma bem rápida, acho que posso sim ter
cometido erros, ou deixado de abordar argumentos relevantes, e se for o caso
gostaria que me fosse apontado.
Mas por favor, menos discurso político, e mais argumentação
racional. E bem, mesmo que não seja inconstitucional, eu ainda acho que cotas
raciais são no mínimo estúpidas. Comentem.




